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04 de Outubro de 2026

Natasha tenta quebrar dois tabus: MT nunca elegeu uma mulher e apoio de Lula não leva candidato ao Paiaguás desde 2010

Natasha tenta quebrar dois tabus: MT nunca elegeu uma mulher e apoio de Lula não leva candidato ao Paiaguás desde 2010

A médica Natasha Slhessarenko (PSD) chega à eleição de 4 de outubro diante de dois marcos históricos que sua candidatura tenta romper em Mato Grosso. Se vencer a disputa pelo Palácio Paiaguás, será a primeira mulher eleita governadora do Estado e encerrará um período de 16 anos sem que um candidato ao governo com apoio oficial de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) consiga chegar ao comando do Executivo estadual.

Os dois desafios atravessam décadas da história eleitoral mato-grossense. Desde a retomada das eleições diretas para governador, em 1982, nenhuma mulher venceu a disputa pelo cargo. As candidaturas femininas ao governo foram raras e, até agora, nenhuma chegou perto de vencer o pleito.

 

Em 1990, Mafalda Santello Pedra (PSD) foi a primeira mulher a disputar o governo de Mato Grosso após a redemocratização. Com Catarina Zeitounlian (PSD) como vice, numa chapa formada exclusivamente por mulheres, terminou na quinta colocação, com 1,24% dos votos válidos. A eleição foi vencida por Jayme Campos (PFL), com 66,85%.

Nas eleições seguintes, as mulheres voltaram a aparecer apenas na condição de vice. Em 1998, Ana Maria Daltro (Prona) compôs a chapa de Manoel Novaes. Dante de Oliveira (PSDB) acabou reeleito com 53,95% dos votos. Na mesma eleição, o petista Carlos Abicalil ficou em terceiro, com 7,38%.

Em 2002, Janete Riva foi vice de Antero Paes de Barros, enquanto Iraci França integrou como vice a chapa vencedora de Blairo Maggi. Elenilda Scala, por sua vez, compôs a candidatura de Alexandre César (PT).

Foi justamente Iraci quem posteriormente abriu um precedente fora das urnas: como vice de Blairo, assumiu temporariamente o comando do Executivo durante ausências do governador. Apesar de ter exercido a função, não chegou ao Palácio Paiaguás como titular eleita.

Quatro anos depois, a história das mulheres na eleição estadual ganhou um capítulo diretamente ligado a Natasha. Em 2006, sua mãe, a então senadora Serys Slhessarenko (PT), disputou o governo. Serys recebeu 159.686 votos, equivalentes a 11,32% dos válidos, e terminou em terceiro. Blairo Maggi (PPS) foi reeleito no primeiro turno, com 65,39%, enquanto Antero Paes de Barros (PSDB) ficou em segundo, com 19,83%.

Oito anos depois, Janete Riva (PSD) entrou na disputa de 2014 após o marido, o então deputado José Riva, ter a candidatura barrada com base na Lei da Ficha Limpa. Janete recebeu 144.440 votos, ou 9,92%, e ficou em terceiro. Pedro Taques (PDT) venceu com 57,25%, enquanto Lúdio Cabral (PT) chegou a 32,45%.

Em 2018, nenhuma mulher encabeçou uma das cinco candidaturas ao governo. Sirlei Theis (PV) foi vice de Wellington Fagundes (PR), que terminou na segunda posição, com 19,56%. Mauro Mendes, então no DEM, venceu no primeiro turno, com 58,69%.

A candidatura feminina que mais avançou veio na eleição seguinte. Em 2022, a então primeira-dama de Cuiabá, Márcia Pinheiro (PV), ficou na segunda colocação, com 267.172 votos, equivalentes a 16,41% dos válidos. Mauro foi reeleito com 1.114.549 votos, ou 68,45%.

Agora, Natasha tenta ir além de Mafalda, Serys, Janete e Márcia e se tornar a primeira mulher eleita para comandar Mato Grosso.

Até hoje, mulheres chegaram ao posto máximo do Executivo estadual apenas temporariamente. Além de Iraci França, a desembargadora Maria Helena Póvoas assumiu interinamente o governo em outubro de 2021. Na época presidente do Tribunal de Justiça, ela ocupou o cargo durante quatro dias, após o governador Mauro Mendes viajar ao exterior e o então governador em exercício, Otaviano Pivetta (Republicanos), pedir licença.

O segundo desafio: o palanque de Lula

O outro componente histórico da candidatura de Natasha está no campo político. Apoiada por Lula na eleição de 2026, a médica tenta fazer o que nenhum candidato ligado ao petista conseguiu desde a vitória de Silval Barbosa (MDB), em 2010: conquistar o governo de Mato Grosso.

 

A relação entre Lula, o PT e as disputas pelo Palácio Paiaguás, no entanto, nem sempre se traduziu em uma candidatura exclusivamente petista.

Em 1990, quando Lula já despontava como principal liderança nacional do PT após a eleição presidencial de 1989, o partido lançou Luiz Soares Scaloppe ao governo. Ele recebeu 75.685 votos, ou 12,62%, e ficou em terceiro. Jayme Campos venceu aquela eleição com 66,85%.

Em 1994, o cenário foi diferente. O PT integrou a ampla coligação que elegeu Dante de Oliveira (PDT), ao lado de partidos como PMDB, PSDB, PSB, PCdoB, PPS, PV e PMN. A aliança estadual, porém, reunia legendas com diferentes candidatos à Presidência. Reportagem da época registra que Dante abriu seu palanque aos presidenciáveis das siglas aliadas, incluindo Lula.

Quatro anos depois, já no PSDB, Dante buscou a reeleição fora de uma aliança com o PT. Os petistas lançaram Carlos Abicalil, que recebeu 64.619 votos, ou 7,38%, enquanto Dante foi reeleito com 53,95%.

Em 2002, o PT apresentou Alexandre César ao governo. Em 2006, com Lula buscando a reeleição à Presidência, a candidata petista ao Paiaguás foi Serys Slhessarenko. O resultado das urnas mostrou inclusive uma diferença entre o desempenho das duas disputas: Lula recebeu 38,65% dos votos presidenciais no Estado no primeiro turno, enquanto Serys alcançou 11,32% para governadora.

A última vitória de uma candidatura ao governo oficialmente apoiada pelo campo de Lula ocorreu em 2010. Silval Barbosa (PMDB) contou com o apoio oficial do então presidente e de Dilma Rousseff e foi eleito no primeiro turno com 51,21% dos votos. Mauro Mendes (PSB), segundo colocado, recebeu 31,85% e também explorou a imagem dos petistas em sua campanha, apesar de o apoio oficial estar com Silval.

Em 2014, Lúdio Cabral foi o candidato do PT ao governo. Ele recebeu 472.507 votos, ou 32,45%, mas terminou atrás de Pedro Taques, eleito com 57,25%.

Na eleição de 2018, quando Fernando Haddad substituiu Lula como candidato do PT à Presidência, o partido integrou a coligação de Wellington Fagundes, no então PR. Wellington recebeu 280.055 votos, ou 19,56%, e terminou em segundo, enquanto Mauro Mendes venceu com 58,69%.

Quatro anos depois, com Lula novamente candidato à Presidência, o palanque de seu campo político em Mato Grosso foi encabeçado por Márcia Pinheiro. A candidata do PV estava em uma coligação formada, entre outros partidos, pela Federação Brasil da Esperança — PT, PV e PCdoB — e terminou em segundo, com 16,41%, contra 68,45% de Mauro.

Em 2026, portanto, as duas trajetórias se cruzam na candidatura de Natasha. Filha da mulher que, duas décadas atrás, tentou chegar ao governo pelo PT, ela busca superar uma barreira que nenhuma candidata conseguiu romper nas urnas e, simultaneamente, recolocar no Palácio Paiaguás um projeto apoiado por Lula pela primeira vez desde a eleição de Silval, há 16 anos.

A dimensão do desafio também aparece no cenário atual. Pesquisa Quaest divulgada em 25 de setembro mostrou Natasha com 11% das intenções de voto, atrás de Otaviano Pivetta (Republicanos), com 29%, e Wellington Fagundes (PL), com 27%. O levantamento ouviu 804 eleitores entre 21 e 24 de setembro e tem margem de erro de três pontos percentuais.

A eleição de domingo, assim, definirá não apenas o próximo ocupante do Palácio Paiaguás, mas se duas marcas que atravessam a história eleitoral recente de Mato Grosso permanecerão: a ausência de uma mulher eleita para o governo e o intervalo, aberto desde 2010, sem uma candidatura apoiada por Lula vencer a disputa estadual.

Fonte: olhardireto

Autor: Airton Marques