• Domingo, 04 de Outubro de 2026
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04 de Outubro de 2026

Entre o fenômeno Blairo e a queda de Dante, Mauro tenta transformar governo em vaga no Senado

Entre o fenômeno Blairo e a queda de Dante, Mauro tenta transformar governo em vaga no Senado

O ex-governador Mauro Mendes (União) chega às urnas neste domingo (4) diante de um desafio que já produziu resultados opostos na história recente de Mato Grosso: deixar o Palácio Paiaguás e tentar transformar o capital político acumulado no Governo em uma cadeira no Senado.

Na prática, Mauro busca repetir o caminho percorrido por Blairo Maggi (PP) em 2010, quando deixou o Governo, liderou toda a campanha ao Senado e terminou a eleição com mais de 1 milhão de votos. Ao mesmo tempo, tenta evitar o destino de Dante de Oliveira, que oito anos antes saiu do Paiaguás com alta aprovação e chegou a aparecer com ampla vantagem nas intenções de voto, mas terminou fora das duas vagas disponíveis.

 

O histórico desde a redemocratização mostra que ocupar o principal cargo do Estado não representa garantia de sucesso na eleição seguinte para o Congresso.

O primeiro exemplo ocorreu com Carlos Bezerra (MDB). Eleito governador em 1986, Bezerra deixou o Paiaguás em 1990 e tentou migrar diretamente para o Senado. Naquele ano, havia apenas uma cadeira em disputa e Júlio Campos, então no PFL, venceu com 331.212 votos, equivalentes a 60,58% dos válidos. Bezerra terminou em segundo, com 136.238 votos, ou 24,92%.

Bezerra conseguiria chegar ao Senado quatro anos depois, em outra eleição. Em 1994, conquistou uma das duas vagas disponíveis com 281.885 votos, apenas 792 a mais que Antero Paes de Barros, que terminou em terceiro.

Dante liderou, mas ficou fora

O caso mais emblemático de uma liderança que não se confirmou nas urnas ocorreu em 2002. Dante de Oliveira havia conquistado o Governo em 1994 e sido reeleito em 1998. Deixou o cargo em abril de 2002 para disputar o Senado depois de mais de sete anos à frente do Estado.

Naquele momento, carregava índices elevados de popularidade. Pesquisa Ibope publicada pouco antes de sua saída apontava aprovação de 73% da administração. Relatos posteriores sobre aquela eleição também registram que Dante chegou a alcançar patamares próximos de 80% nas intenções de voto ao Senado meses antes da votação.

O cenário, porém, mudou ao longo da campanha. Dante terminou a apuração em terceiro, com 439.798 votos, equivalentes a 19,83% dos votos válidos, e ficou fora do Senado. Jonas Pinheiro (PFL) liderou com 612.965 votos, ou 27,64%, enquanto Serys Slhessarenko (PT) conquistou a segunda cadeira com 575.539 votos, 25,95%.

Murilo Domingos (PTB) apareceu em quarto, com 287.183 votos, seguido por Carlos Bezerra (PMDB), com 238.960.

A eleição ocorreu em meio a fissuras no grupo político que havia sustentado Dante. Um dos episódios daquele período foi o afastamento do então prefeito de Cuiabá, Roberto França, depois das articulações em torno da sucessão estadual. O ex-governador também carregava desgastes acumulados durante dois mandatos, entre eles embates com o funcionalismo.

O resultado transformou a eleição de 2002 em um alerta sobre os limites da transferência para uma nova disputa do capital político construído no Executivo.

Blairo faz o caminho inverso

Oito anos depois, Blairo Maggi conseguiu fazer exatamente essa transição. Eleito governador em 2002 e reeleito em 2006, Maggi deixou o Paiaguás em abril de 2010 e entregou o comando do Estado ao vice Silval Barbosa, que seria reeleito governador ainda no primeiro turno naquele ano.

Blairo saiu do Governo com índices ainda maiores de aprovação. Levantamento do Instituto Mark realizado às vésperas da desincompatibilização apontou 85,4% de aprovação. Outra pesquisa, do Vox Populi, chegou a registrar 92%.

A vantagem também apareceu desde o início da corrida pelo Senado. Em maio, o Vox Populi registrava Maggi com 73% das intenções de voto na modalidade estimulada. Em agosto, pesquisa Ibope ainda mostrava o ex-governador isolado na frente, com 61%. No levantamento divulgado poucos dias antes da votação, ele aparecia com 67%.

 

Diferentemente de Dante, a liderança resistiu até as urnas.

Blairo recebeu 1.073.039 votos, equivalentes a 37,08% dos votos válidos, e conquistou a primeira das duas cadeiras. Até hoje, a votação permanece como uma marca expressiva nas eleições majoritárias do Estado.

A surpresa ficou com a segunda vaga. Pedro Taques (PDT), que havia construído projeção pública como procurador da República, começou a campanha distante dos primeiros colocados. Em maio, aparecia com apenas 5% no Vox Populi. Na reta final, cresceu e terminou com 708.440 votos, ou 24,48%, superando Carlos Abicalil (PT), que recebeu 533.280, e Antero Paes de Barros (PSDB), com 345.094.

Mauro tenta repetir 2010

Dezesseis anos depois, Mauro chega à eleição em uma posição que guarda semelhanças com a ocupada por Blairo.

Depois de governar Mato Grosso desde janeiro de 2019, o ex-governador deixou o Paiaguás em março deste ano e entregou o cargo ao então vice Otaviano Pivetta (Republicanos). Agora, tenta fazer a passagem direta do Executivo estadual para o Senado.

As pesquisas realizadas na reta final registram Mauro entre os nomes mais citados. Na Quaest divulgada em 25 de setembro, ele tinha 27%, contra 19% de Janaina Riva (MDB), enquanto Pedro Taques e José Medeiros apareciam com 9% cada e Carlos Fávaro (PSD), com 8%.

Outro levantamento, do Instituto Percent, divulgado nesta quinta-feira (1º), registrou Mauro com 34,21% dos votos válidos e Janaina com 24,84%. Os percentuais e a distância entre os candidatos variam conforme o instituto e a metodologia adotada.

A configuração guarda outra semelhança com 2010: enquanto um ex-governador ocupa posição de destaque nos levantamentos, a disputa pelas demais posições mobiliza nomes com trajetórias políticas distintas. Além de Janaina, estão na corrida candidatos como Fávaro, Medeiros e Taques.

Pesquisas para o Senado, especialmente em eleições com duas vagas, também carregam uma dificuldade adicional: cada eleitor pode escolher dois candidatos, e parte do eleitorado define o segundo voto apenas na reta final. Os levantamentos, portanto, representam um retrato do momento em que foram realizados, e não uma projeção do resultado.

Governo como cartão de visitas

Assim como Blairo fez em 2010, Mauro colocou o legado administrativo no centro de sua campanha. Em sua propaganda eleitoral, o ex-governador tem destacado resultados dos mais de sete anos em que comandou Mato Grosso e apresentado sua passagem pelo Executivo como credencial para o Senado. A campanha cita equilíbrio das contas estaduais, investimentos em infraestrutura, hospitais, escolas, segurança e obras como a BR-163.

A mensagem usada por Mauro é a de transportar para Brasília o estilo de gestão que afirma ter aplicado no Estado. Em material oficial de campanha, diz querer levar ao Senado “a coragem de enfrentar problemas que pareciam impossíveis” e fazer de Mato Grosso uma referência para o país. É justamente essa aposta que será testada no domingo.

Desde a redemocratização, Bezerra tentou a passagem direta do Paiaguás para o Senado e perdeu em 1990. Dante deixou o Governo popular e liderando levantamentos, mas terminou em terceiro em 2002. Blairo, por outro lado, saiu com aprovação elevada, sustentou a liderança e ultrapassou a marca de 1 milhão de votos em 2010.

Mauro chega às urnas tentando acrescentar seu nome ao segundo grupo — mas é o resultado de domingo que definirá qual desses precedentes históricos ficará mais próximo de sua trajetória.

Fonte: olhardireto

Autor: Airton Marques