A Primeira Vara Criminal de Cuiabá ouviu nesta terça-feira (29), no júri popular sobre o homicídio do advogado Roberto Zampieri, a testemunha José Marcos Marini, amigo da vítima. Em depoimento, Marini relatou ter presenciado o momento dos disparos e detalhou episódios em que esteve com o réu Antônio Gomes da Silva antes do crime. Antes dele, foram ouvidos o delegado federal Marco Bontempo, o delegado da Polícia Civil Nilson Farias e a secretária no escritório da vítima, Mariana Costa Pinto.
A testemunha informou que estava no escritório no momento do fato, em dezembro de 2023, e que deixou o local acompanhada de Zampieri. Segundo o relato, cada um caminhou em direção ao seu respectivo veículo quando os tiros foram efetuados no estacionamento. Marini declarou ter visto o atirador caminhando normalmente após os disparos, na direção de um hospital, e que cogitou correr atrás do suspeito, mas desistiu.
A testemunha conhecia o atirador anteriormente, pois este havia aparecido algumas vezes no escritório.
Em resposta às perguntas do promotor, Marini reiterou que foi orientado por Zampieri a acompanhar Antônio até uma fazenda que o acusado alegava interesse em comprar. A vítima iria junto na viagem, mas ligou por volta das 22h informando que não poderia comparecer. O réu sustentava que um sobrinho, morador dos Estados Unidos, pretendia adquirir a propriedade para produção leiteira.
A testemunha relatou que Antônio não demonstrou interesse pela terra durante a visita, impressão que o amigo relatou ao advogado. Questionado sobre a conduta do acusado no escritório, Marini afirmou que o réu frequentava o balcão do local e tinha conhecimento sobre quais veículos do advogado eram blindados. No dia do crime, a vítima não utilizava o veículo habitual, mas um blindado.
Marini citou ainda um episódio em uma propriedade onde havia tachos de cobre. Segundo o depoimento, o acusado, que se apresentava como padre, enviou mensagem à noite sugerindo o retorno ao local para pegar os objetos, pois "valiam dinheiro". O fato causou estranhamento à testemunha.
"Um padre não iria me perguntar tarde da noite para falar para pegar tacho de cobre", declarou Marini.
Questionamentos da defesa
Inquirido pelo advogado do réu, Antônio Gomes da Silva, sobre a declaração de que o acusado apresentava conversas desconexas, a testemunha explicou que a justificativa dada sobre o projeto de gado de leite não fazia sentido para as condições climáticas de Cuiabá.
A defesa questionou quem arcou com o pagamento do combustível utilizado no deslocamento até a fazenda. A testemunha respondeu que efetuou o abastecimento e que o réu se ofereceu para pagar o valor. Sobre os diálogos com Zampieri a respeito do acusado, a testemunha afirmou ter dito apenas ao advogado que a situação estava estranha.
A defesa também indagou Marini sobre pessoas identificadas como Marcelo, morto em Ribeirão Cascalheira, Elveci e a investigada Maria Angélica. A testemunha respondeu que Zampieri nunca mencionou esses nomes e declarou não ter conhecimento sobre os negócios do advogado ou investigações de venda de sentenças. "A gente não tem certeza de nada", concluiu.
Dona do hotel
Ouvida, a proprietária do hotel em que o réu ficou hospedado em Cuiabá, Lucilene, disse que o hóspede pagou as diárias em notas de R$ 100. Detalhou que ele sempre saía e voltava a pé e, a princípio, dividia o quarto com uma mulher. Mas depois ela foi embora e ele trocou de quarto, pegando um com camas de solteiro.
A mulher relatou que Antônio andava com uma caixa de sapatos dentro de um saco de lixo e que a mulher que o acompanhava sempre estava de cabeça baixa.
19h30 - Delegado que cumpriu prisão
O delegado da Polícia Civil, Edison Ricardo Pick, relatou a execução do mandado de prisão do réu em Belo Horizonte (MG) e respondeu sobre os procedimentos investigativos do caso.
A advogada de Etevaldo Caçadini, Sarah Quinetti, questionou a testemunha sobre a atuação na prisão de Caçadini. Pick confirmou ter participado da ação, acompanhando diligências na residência do investigado e em seu estabelecimento comercial localizado em uma galeria. O delegado informou que não foram apreendidas armas, equipamentos ou outros objetos no local e declarou não haver registros de vida pregressa criminosa do réu.
Questionada sobre a análise de dados, a testemunha afirmou não ter realizado a checagem bancária de Caçadini nem recordou da presença de mensagens apontando o réu como organizador do crime. O delegado negou ciência sobre relatos de suposta tortura contra o réu Antônio Gomes da Silva.
Discussão entre advogada e promotores
A oitiva registrou momento de atrito durante a abordagem de outra prisão efetuada à época das apurações. Ao falar sobre a detenção de outro homem, o promotor de Justiça Vinícius Gahyva interveio, afirmando que a prisão ocorreu em flagrante por situação alheia ao homicídio do advogado e não por mandado expedido no processo.
A declaração gerou contestações da advogada, que disse que o promotor estaria mentindo. Houve troca de acusações no plenário.
"Eu não tenho medo dos seus gritos. Me respeitem. É só eu pegar no microfone que os senhores começam a gritar", declarou a advogada ao MP.
Diante do impasse e das reclamações da defesa sobre gestos da acusação, o juiz encarregado da sessão interveio e alertou sobre a possibilidade de suspensão dos trabalhos caso as interrupções persistissem.
Fonte: gazetadigital
Autor: Jessica Bachega e Thiago Novaes